Antes do apocalipse
Prepare-se para o pior. Acumule grana e medicamentos. Comece a fazer exercício físico. Coma frutas e verduras. Tudo o que parece seu é bom que agarre já.
Se sobreviver, sobreviveu.
Desde o último apocalipse muitos não sobreviveram, mas nós estamos aqui, vivos - ou quase isso -, e estamos aqui amedrontados, caídos numa vala comum, com nojo de encostar na carne viscosa do nosso vizinho. Lembro de uma noite nos idos de 2010 em que marcamos de sair todos juntos, da casa de um amigo em comum, em direção à monotonia do vinho suave de garrafa de plástico e do prensado mofado, todo fodido. Não choveria e nem faria nem frio e nem faria calor e eu tinha alguns reais que serviriam pra pagar algum vinho a mais. Um cenário de bom agouro se desenhou. Prestes a sair da casa desse amigo, recebemos a visita de um garoto que morava numa casa do lado, conhecido de alguns dos nossos. Sua chegada nos fez adiar um pouco a partida. Conversamos um pouco e fiquei sabendo que era mais novo que eu uns 5 anos e que gostaria de se drogar mais. Como a hora já avançava perigosamente, quase servindo pra nos lembrar que aquela noite não seria diferente das outras, resolvemos seguir com os planos. O garoto vizinho não aceitou vir com a gente pois “Já marquei com dois colegas da escola. Vai ter um cover do Metallica“. Noite igual às outras até o momento em que eu, sozinho, quase chegando em casa, meio bêbado, completamente frustrado, recebo uma ligação. “Sabe o M*, meu vizinho? O que não quis vir com a gente? A mãe dele acabou de me avisar que ele morreu”. “De quê?”, perguntei. “Bebeu muito e se fodeu”.
Por aqueles dias apenas senti o impacto, praticamente um encontrão num ônibus lotado, mas hoje penso nisso com tristeza, mas também com fascínio. Tristeza porque era só um menino que ficou na dúvida se passaria a noite com os colegas de escola ou com os caras mais velhos e que acabou escolhendo a segurança de uma palavra dada. Um compromisso já firmado. Teria morrido se tivesse escolhido os caras mais velhos? Como ateu, tendo a acreditar que não teria morrido. Escolha diferente, cenário diferente. O fascínio vem justamente dessa escolha. Uma decisão relativamente pequena pra uns, gigante pra outros, capaz de mudar tudo, inclusive se alguém vive ou morre.
“Tá certo. Li isso e o apocalipse e tal. O que uma coisa tem a ver com a outra? Qual foi esse último apocalipse?”
Entenda como quiser. Comecei querendo escrever sobre uma coisa e acabei escrevendo sobre outra coisa, meio que contando uma memória que à primeira vista pode parecer lição de moral que avisa pra aproveitar o tempo que se tem ou algo assim, mas que não significa muita coisa não. Só coisa escrita.